Publicado em Tag -Entrevistas

Cléu Sampaio – Artesã

Área de Atuação: Artigos Têxteis Artesanais

Cidade: São Paulo – SP

Cléu é proprietária do Folias de Donzela 

https://www.facebook.com/foliasdedonzelaImagem

 

Postura Urbana: Onde busca referências para confeccionar suas bolsas?

Cléu Sampaio: Eu não busco, só as percebo. Acho que tem duas coisas importantes no meu processo de criação. Uma é o olhar muito atento; acho que a visão é meu sentido mais aguçado. Eu “boto reparo” em tudo que está ao meu redor. Anúncios de publicidade, na rua, a roupa das pessoas, decoração e disposição dos ambientes, cores, natureza. Muita coisa me chama a atenção espontaneamente, vou guardando isso em forma de anotações ou de desenhos e em algum momento acabo usando em alguma peça. Outra coisa é a pergunta que sempre me faço: por que não? Por que não misturar essa cor com aquela? Por que não usar esse tecido de lençol pra fazer bolsa? Ou esse de roupa pra fazer almofada? É a pergunta que me empurra para a inovação, que me ajuda a não emperrar a criatividade.

Postura Urbana: Como surgiu Folias de Donzela?

Cléu Sampaio: Quero te responder isso falando de dois aspectos: o profissional e o estético. Profissionalmente, existia uma vontade minha de ser mais feliz, de fazer um trabalho que me desse mais prazer e que fosse útil para outras pessoas. Nos anos de 2006 e 2007 eu atendia como psicóloga clínica, à noite, e trabalhava como funcionária pública em horário comercial, numa atividade que não tinha nada a ver comigo. Gostava de atender, mas não podia largar meu emprego para fazer só isso porque era ele que garantia meu sustento. Sempre gostei de trabalhos manuais e descobri que a internet poderia ser um bom canal de vendas, com uma estrutura de custo inicial baixo; por conta disso resolvi começar a fazer bolsas de tecido. Aprendi a costurar, comprei a máquina e comecei a experimentar. Depois de 8 meses tava colocando o blog no ar com as primeiras peças para venda. Durante um ano eu cheguei a levar as três atividades: consultório à noite, governo em horário comercial e costura de madrugada e nos finais de semana. Claro que em dado momento percebi que não daria conta de tudo e teria que escolher. Abri mão do consultório na época; e finalmente, só em 2012, consegui pedir minha exoneração para me dedicar exclusivamente a Folias.

Quanto à estética, eu sentia falta de produtos com essa cara e esse cuidado. A maioria das peças de Folias são muito coloridas ou com estampas florais, algumas bordadas. A inspiração de fundo é sempre bem brasileira – os folguedos, o artesanato regional, as casas coloridas do interior nordestino. Mas também sempre quis que as peças fossem bem acabadas, para a mulher adulta, que tivessem alguma elegância. Porque acho que ainda existe muito preconceito nesse sentido, de associar o trabalho artesanal, principalmente na moda, a algo com acabamento a desejar, ou muito informal, algo pra ser usado só na praia, por exemplo. Queria quebrar isso, mostrar que uma peça não precisa ser monótona, pode ser diferente e original, mas também bonita e bem feita; acho que estamos no caminho.

Postura Urbana: Como artesã qual sua maior dificuldade em termos de trabalho autônomo?

Cléu Sampaio: O acúmulo de funções. Adoraria ser só artesã; na verdade, adoraria ficar só na pesquisa, criação e desenvolvimento de produto – hoje já lido bem melhor com a ideia de terceirizar a execução, desde que mantendo a qualidade e o capricho pelos quais sempre zelei. Mas ainda trabalho sozinha, então hoje preciso dar conta de todas as atividades envolvidas com a marca: planejar a compra de material, ir aos fornecedores, compor preço de cada peça, controlar o caixa, desenvolver material gráfico e de divulgação pela internet, administrar as páginas da marca nas redes sociais, fazer o atendimento às clientes, fotografar e tratar a imagem das peças, mesmo sendo amadora no assunto, organizar os bazares. É muita coisa, atividades nas quais eu não sou profissional, de maneira que acabo usando a maior parte do meu tempo com tarefas que não são o meu melhor, meu melhor é criar e produzir as peças.

Postura Urbana: Qual sua opinião sobre a moda atual de bolsas e acessórios?

Cléu Sampaio: Não sei te responder isso. Talvez porque seja uma lacuna mesmo, algo a que eu precise prestar mais atenção. Ou, talvez, porque eu não me importe muito. Cada vez mais meu interesse tem se voltado para o desenvolvimento da superfície têxtil: estampa, cor, textura, tecimento. De maneira que artigos têxteis me interessam mais do que somente acessórios; desde o ano passado, por exemplo, comecei a produzir aventais, almofadas, jogos americanos. E agora mantas de crochê, que eu crio e outra pessoa executa. Assim, o trabalho se expande, abrangendo artigos de decoração e utilitários, e a tendência é que as bolsas da Folias sejam de modelagem cada vez mais simples, ficando a graça e o diferencial para a superfície em si. Quando e se eu tiver uma opinião sobre a moda de bolsas e acessórios, te conto qual é!

Postura Urbana: Daqui há 5 anos como você se vê como profissional?

Cléu Sampaio: A frente de uma marca socialmente responsável em sua área de atuação. Estamos desenvolvendo um trabalho muito bacana em parceria com a Lanakana, uma consultoria que, entre outras coisas, dá apoio ao desenvolvimento de modelos de negócios sustentáveis. Estamos justamente na fase de pensar nestas questões: para onde eu quero que vá  a Folias de Donzela, que tipo de negócio quero que ela seja, que tipo de relação quero ter com seus clientes, fornecedores, com quem produz, com seus parceiros, com o meio ambiente. Penso que o processo produtivo na cadeia têxtil é complexo e ainda bastante obscuro no que diz respeito a vários pontos – mão de obra, destinação de resíduos e origem da matéria prima são exemplos. Acho que  a Folias pode ser inovadora nesse sentido; mostrar que é possível ser uma empresa que trabalha com artigos têxteis de maneira sustentável, se preocupando com seu processo de produção e com todos ligados a ele, mostrando que trabalho artesanal definitivamente não precisa ser sinônimo de trabalho amador. E claro que guardo a poesia disso tudo: em 5 anos quero constatar que pude produzir alguma beleza e ajudar pessoas a serem um pouquinho mais felizes. 

Postura Urbana: Parabéns pelo Trabalho. Sucesso pra vc Cléu, obrigada pela entrevista!!!

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Um comentário em “Cléu Sampaio – Artesã

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