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Jaqueline Rodrigues – Representatividade na Educação

trabalho na porta da sala com alunos no natal

Mulher e ativista da causa pelos direitos da igualdade social, racial e inclusiva, Jaqueline Rodrigues é Pedagoga, reside em São Paulo, prestes a começar seu Mestrado em Pedagogia na PUC, ela nos conta um pouco de sua vivência de luta e sua carreira profissional.

Postura Urbana – Conte sobre sua trajetória profissional:
Jaqueline Rodrigues – Sou professora há apenas 1 ano e meio, mas já trabalho na área há 4 anos, antes de formada trabalhava como estagiaria renumerada, em um órgão da prefeitura de São Paulo, em que olha com carinho para as crianças de inclusão. No primeiro momento se olha para os alunos com alguma dificuldade cognitiva, há formações para esses estagiários mensalmente, no qual levamos o que se passa entre os alunos com essa dificuldade, e com auxílio de mestres na educação ou profissionais da saúde, que sempre nos trazia soluções para nossos obstáculos. Aprendi muito nos dois anos que trabalhei nesse órgão, o que muito me ajuda, hoje, como educadora. Quando formada trabalhei em creches até conseguir entrar na prefeitura de Osasco, como professora PEB I no qual estou há 1 ano. Ainda sou professora seletiva, mas logo creio, serei efetiva.

Postura Urbana – Uma personalidade que você admira( na área política, na área acadêmica ou na literatura)
Jaqueline Rodrigues – Admiro muita gente, mas a que me veio à mente na hora que li a pergunta foi a professora Maria Clara Di Pierro, professora da faculdade de educação da Usp. Em 2016 a conheci pessoalmente quando consegui a muito custo, ser aluna ouvinte dela por um semestre, e conheci essa mente brilhante, que me ensinou muito. Ela tem uma posição segura no que fala, o que me faz querer ser como ela. Ela se preocupa muito com os excluídos e seus livros retratam bem esse sentimento, além do mais, a ouvindo em aula, pude constatar sua indignação, apesar que sutil, na questão.

Postura Urbana – Como você define a situação atual do povo negro? Onde avançamos e onde regredimos?
Jaqueline Rodrigues – Nós estamos ascendendo, a passos lentos, mas estamos alcançando nossos sonhos. Em 2015 em uma reunião de pretos universitários, chamado EECUN, que se realizou na UFRJ por 3 dias, e lá se reuniram 2000 pretos que muito agregou ao meu crescimento. Ali ouvi um dos palestrantes dizer que nós pretos, não podemos apenas parar na primeira graduação, eu já tinha essa ideia em minha mente, mas depois de ouvi-lo fiquei refletindo ainda mais sobre isso, em como nós precisamos nos enriquecer em muitos cursos e não parar pois nossa posição em grandes cargos requer grandes aprendizados, e os excluídos precisam de nós ali, para fazer políticas públicas que os incluem. A meu ver, estamos ainda pouco representados nas políticas públicas, depois de 2014, diminuiu mais ainda nossa representação lá, precisamos de pretos com pulso forte que busquem nossa inclusão em muitos setores.

Postura Urbana – E sobre a posição da mulher negra? Para onde estamos caminhando?
Jaqueline Rodrigues – A mulher preta muito tem se destacado, há várias mulheres por aí que buscam sua posição de guerreira, uma delas que muito admiro é a Djamila Ribeiro, estive em alguns de seus debates e vejo a força da mulher impregnada nela, até sua voz mostra sua força. Ela é um exemplo para muitas guerreiras que estão buscando sua posição no mundo. Toda vez que a ouço, vejo o quanto é importante a representatividade de uma mulher que sabe o que está falando e que mostra o tanto de conhecimento que possui, analiso que quanto mais preparada formos mais nos ouvirão, e estamos nessa busca, vejo muitas de nós em vários cursos de mestrados e doutorados, sabe aquela velha frase dos Panteras Negras? “Vamos nos armar de livros, venceremos com conhecimento”.

Postura Urbana – Porque você acha que é tão difícil para algumas pessoas se assumirem como negra? É uma questão cultural, educacional ou familiar?
Jaqueline Rodrigues – Engraçado que quando comecei minha luta pelos movimentos pretos, ouvi uma preta quase retinta que se via morena, antes de entrar no movimento. Eu olhava para ela e pensava que para mim foi diferente, eu sempre me via preta, mesmo tendo a pele mais clara que a dela e que essa minha visão era por ter sofrido muito por ser preta, um dia aos 15 anos, depois de sofrer um racismo explícito na escola, cheguei em casa chorando escondido e pedi para Deus, com todas as forças de meu ser, que acordasse branca, e em minha ingenuidade acreditei que Deus faria esse “milagre” e acordei frustrada ao constatar que minha pele continuava preta. Vejo que muitos não se veem pretos para não sofrerem tanto, alisam cabelos, passam muitos makes nas faces para branquear e assim conseguirem passar pelo mundo sem cicatrizes. Quando comecei minha transição capilar, minha família olhava consternada, e alguns diziam para eu parar de falar tanto em racismo e alisar meu cabelo de novo que nem preta eu era. Eu sorria, mas minha vontade era chorar de ver tanta ignorância, mas não guardo rancor, apenas entristeço, pois ainda hoje muitos não falam mais no assunto, mas vejo o olhar velado deles ao que digo, procuro não dizer muito, já que na mente de muitos pretos mais claros, é que, quanto mais falamos mais atraímos, como se não falar no assunto fará sumir o racismo existente. Para muitos, tem- se a impressão que depois que começamos a falar, apareceu mais o racismo, mas a verdade é, que ele sempre existiu, nós que fingíamos não existir. Os pretos sofrem mais agressão moral ou física, sofrem mais na posição acadêmica, na educação, na saúde, na perseguição policial e nos genocídios. Dessa forma o racismo é estrutural, ou seja, que faz com quem sofre, e aos que praticam o olhem como normal.

Postura Urbana – Qual a dor e a delícia de ser professora? Qual matéria você leciona?
Jaqueline Rodrigues – A dor de ser professora é ver que falta uma melhor política pública para os excluídos que foram incluídos, mas que de certa forma, não acompanham uma aprendizagem satisfatória, penso que precisam mais cursos para professores se aperfeiçoarem, claro que já existe muitos que buscam seu aperfeiçoamento, mas esses cursos tem que ser constantes, pois a cada dia há mais inclusões e muitos dos quais não temos total conhecimentos, vamos ali meio que pesquisando sozinhas, o melhor caminho a seguir com cada indivíduo. A delícia de lecionar, é ver os olhinhos brilhantes buscando respostas, isso me encanta sempre, cada vez que vejo os olhinhos em minha direção, vejo meus olhos quando busco minhas respostas ao estar em alguma aula, pois toda palestra ou debates que vou ou assisto, busco minhas respostas e meus olhos brilham do mesmo jeito que dos meus alunos, e em cada resposta adquirida, vejo suas posições e falas no que aprenderam, é ainda mais grandioso e prazeroso. Eu sou pedagoga, dessa forma, leciono o básico das principais disciplinas nos 5 primeiros ciclos da educação.

Postura Urbana – E o mestrado da Puc? Um sonho ou uma conquista? Conte como chegou até ele.
Jaqueline Rodrigues – O mestrado foi um sonho que me deu muito prazer em conquistá-lo, há dois anos buscava essa realização, e foi com imensa satisfação que o consegui. Essa conquista é do povo preto, já que foi através de movimentos pretos que se teve cotas nos cursos de mestrado e doutorado da PUC. Foram 3 eliminatórias que me renderam muita dor no estômago e duas noites insones, não por não estar preparada mas pela concorrência, já que se tinha 42 inscritos para 20 vagas. A banca e os concorrentes foram lindas, o que me acrescentou muito. É muito bom entrar em um curso no qual a eliminatória te acrescenta e muito, cada um que falava e as intervenções da banca foram já me abrindo os olhos para muita coisa. Essa nova etapa me trará muita luz além de aprendizado. Minha linha de pesquisa será justamente os excluídos, penso no título “ O trabalho da docência nos desvios de conduta dos alunos”, mas ainda não tive nenhum encontro com minha orientadora, por isso não sei se o título continuará o mesmo, mas a pesquisa que quero fazer é justamente como nós professores, podemos trabalhar a aprendizagem dos alunos, quando eles possuem algum distúrbio, seja agressivo, tímido ou apático, pois encontramos vários sintomas, que fazem com que os alunos não tenham uma aprendizagem satisfatória e isso os frustra, e os fazem cada vez mais distantes de nós professores, quero que minha pesquisa ajude a todos educadores e a mim, mas principalmente aos alunos. A PUC vai ficar preta! No dia que fui assinar minha matrícula, uma de minhas amigas de movimentos, passava pela banca de qualificação de projeto para passar para o último semestre do mestrado e concluir sua pesquisa, e nessa banca, em uma salinha modesta da PUC, havia 9 pretos, além que na banca, havia um preto convidado pela mesma. O coordenador falou o quanto estava maravilhado, de ver que tantos pretos, se reuniam na banca de outra aluna, que nunca havia visto isso em outras bancas, e ainda por cima, ter uma pessoa na banca que ainda nem havia começado o curso, no caso eu. Ele lembrou que quando debatia nas reuniões sobre a inclusão de pretos na PUC, que muitos céticos, torceram narizes dizendo que a qualidade das pesquisas iam cair com nossa chegada, e ele pode ver, que nossa presença na PUC, acrescentou muito, inclusive com nossa presença questionadora na banca dos colegas.

Postura Urbana – Esse ano é ano eleitoral, qual sua posição política frente a São Paulo e frente ao Brasil?
Jaqueline Rodrigues – Sou a favor do governo que está do lado das minorias, ou seja, os pretos, mulheres, homos, crianças, moradores de rua, periféricos, entre outros que são excluídos da sociedade. O que muito me preocupa, é que São Paulo move a economia do Brasil, e parece que esse dado, faz com que o capitalismo o habite e o Mercado preocupado em se manter no topo, não deixará (ou impedirá) que governos que pensam nas minorias voltem ao poder. Sabemos que Brasil não é apenas São Paulo, mas o que este dita, transforma opinião de muitos. Vale aos menos favorecidos saberem bem o que são, e a posição que estão, e observarem os políticos que trabalham, para que sejam melhores. O povo não é preparado para compreender o que é a política, o que os torna, analfabetos políticos, o que os faz, visar apenas os que estão nos cargos mais importantes e esquecer de quem faz as leis. E são estes políticos, que muitos não prestam atenção, é que estão nas assembleias ditando o que é melhor, ou pior para nós.

Postura Urbana – Quem é Jaqueline Rodrigues? Como você se autodefine?
Jaqueline Rodrigues – Não dá para falar sobre quem sou eu, sem antes dizer quem fui. Fui uma criança pobre, preta, que como muitas nesse mundo sofreram, ou sofrem racismo, esse fato me trouxe grandes tormentos e inclusive, me acorrentou em uma redoma e de lá não me sentia capaz de sair.
Essa redoma, por anos, me fez negar quem na verdade eu era, ou seja, uma preta que tinha capacidade de ser quem eu quisesse ser, e lutar para ser, e não uma preta insegura, incapaz e sem sonhos. Felizmente encontrei pessoas que foram me ajudando a tirar as cascas da redoma, até me libertar. Hoje posso dizer, que sou Jaqueline Rodrigues, uma mulher preta, guerreira, com ideais, que foi atrás de seus sonhos, que não se abateu com as derrotas, e sim as usou para fortalecimento, e que venceu, mesmo ainda tendo muito a conquistar, me sinto uma vencedora.

Parabéns por seu engajamento em questões tão relevantes Jaqueline, o Postura Urbana agradece a entrevista e lhe deseja Sucesso!

 

fala sobre empoderamento

encontro no quilombo de Eldorado

encenaçãoa peça infantil com alunos, apresentação para escola

EECUN

manifestação das feministas na usp

Imagens: Arquivo pessoal

 

Por JGA

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Autor:

Sagitariana que sempre vai na contramão. Minhas paixões: Bichos( tenho 5 amores), Plantas e a Natureza de uma forma geral. Curto batata frita, cerveja gelada, Rock'n'roll. Tomo Toddy diariamente, é meu elixir. Culinária é meu hobby e eu mando bem, minha especialidade são as massas. Amo toda manifestação de arte( Leitura, Teatro, Cinema, Música, Artes Plásticas). Gosto de assuntos variados, de política a futebol, de filosofia a ciências. A palavra LIBERDADE me define. Sou um mix de sentimentos, sorrisos e lágrimas, amor e raiva, tudo em mim transborda e é intenso.

3 comentários em “Jaqueline Rodrigues – Representatividade na Educação

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