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Paola Prandini

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Profissão: Jornalista e Educadora

Cidade: São Paulo – SP

A entrevista aconteceu em um bate-papo descontraído via Skype, Paola Prandini é muito solícita e desenvolta, sua consciência social, política e étnica chama atenção, principalmente em se tratando de etnia, uma moça branca com um trabalho tão bem elaborado acerca da cultura e da condição do negro na sociedade.

Paola Prandini é uma das fundadoras e atual diretora da AfroeducAÇÃO – negócio social que desenvolve projetos culturais com enfoque educacional, tendo a negritude como tema-chave.

Postura Urbana – Como foi seu envolvimento com o movimento Afro?

Paola Prandini – Na faculdade iniciei com duas amigas, o projeto Dandaras, através de um fanzine, um programa de rádio e da realização do evento “Agosto Negro na Cásper”, em que se realizava cineclubes e debates, nos aprofundávamos sobre as questões de como é ser negro, quais as questões que envolvem a cor da pele. Após o Dandaras, fundei a Afroeducação com a Cinthia Gomes, que não está mais na equipe nos dias de hoje.

Postura Urbana – Em relação aos projetos desenvolvidos pela Afroeducação, como são divulgados?

Paola Prandini – São divulgados massivamente na internet, redes sociais (Facebook, Twiter, Instagram) e no proóprio site da Afroeducação, no total atuo no movimento negro há 10 anos.

Postura Urbana – Tem um projeto de fotografia em andamento, que acontecerá agora em maio, fale sobre ele.

Paola Prandini – Será um curso sobre Fotografia e Cultura Negra, nos dias 10, 17, 24 e 31 de Maio, das 9h às 13h. Quem vai ministrar as aulas é o Diego Balbino (Diego é fotógrafo e divulga seu trabalho no site http://www.diegobalbino.com). As inscrições estão abertas e podem ser realizadas no site da Afroeducação (http://www.afroeducacao.com.br/).

Postura Urbana – Nessa questão da etnia, você acha que a imagem do negro como “SER” inferior ainda vem da época da escravidão?

Paola Prandini – Existe sim uma questão cultural, em quase 125 anos de falsa “abolição”, o negro ainda não tem seu reconhecimento na sociedade, constantemente é vitimizado, a própria polícia coage o indivíduo negro, o jovem negro vem sofrendo violência não é de hoje e isso vem aumentando drasticamente. Há um genocídio da juventude negra acontecendo todos os dias no país.

Postura Urbana – Por não existir uma pessoa como referencial, você acha que a população negra acaba se escondendo?

Paola Prandini – Com certeza, precisa mudar esse discurso do DOMINADOR (aqui no Brasil, representado pelos brancos e ricos), muitas pessoas tentam esconder a pele, não se autodeclaram como negras, isso deve-se ao fato da nossa educação ser totalemnte eurocêntrica.

Postura Urbana – Por todas as questões que envolvem o negro, podemos dizer que vivemos em um Apartheid?

Paola Prandini – Sim claro, um Apartheid camuflado, mas existente e isso só quem é negro sabe, 52% da população brasileira é negra, mais da metade da população é negra e ainda assim fingimos que não vemos? Eu não sou negra, nunca vou sofrer racismo, isso é fato, mas isso não impede que eu não tenha sensibilidade suficiente para buscar sentir a dor do outro.

Postura Urbana – No último domingo( 27/04/14), o jogador brasileiro Daniel Alves, que joga no Barcelona, foi vítima de racismo, jogaram uma banana no campo, insinuando que ele era um MACACO e ele, em resposta, comeu a banana e continuou jogando, o que você tem a dizer sobre isso, já que vários artistas e jogadores se manifestaram a respeito postando fotos com banana nas redes sociais?

Paola Prandini – O que acontece é que a maioria das pessoas BRANCAS não tem a menor sensibilidade e noção, não sabem o quão doloroso é para um negro ser chamado de “MACACO”. Nossa campanha foi, nesse dia, a de que “SOMOS TODOS MACACOS”, só que não, pois é preciso VALORIZAR as diferenças, acabar com o GENOCÍDIO da juventude negra brasileira. Tem um filme chamado “Vista Minha Pele”, do Joelzito Araújo, que retrata essa ideia de uma sociedade em que mais se vêem negros do que brancos, vale a pena conferir.

Postura Urbana – Essa questão da identificação negra também vai muito de como a pessoa se enxerga né? A minha família (eu, Joelma) por exemplo, é miscigenada, tenho primos “brancos”, tenho descendência africana, européia e indígena, minha pele não é tão escura, muita gente vem e me diz: “mas você não é “NEGONA”, e eu sempre rebato, eu sou NEGRA, essa é minha ETNIA e cor nada tem a ver com RAÇA.

Paola Prandini – Sim, com certeza, em pesquisa para meu mestrado, no bairro do Lauzane Paulista, zona norte (SP), em uma escola Municipal, propus uma atividade para alunos do 9º ano, através de filmes, documentários e rodas de conversa, muita coisa me chamou atenção, mas 4 histórias em especial merecem destaque.

*Uma garota que se autodeclarava negra já tinha uma pegada social, tinha consciência de sua identidade negra, mesmo tendo cerca de 15 anos de idade.

*Um garoto que se autodeclarava branco, filho de pai negro e que relatou o fato de as pessoas o questionarem sobre seu genitor, dizendo a ele: “Mas ele não parece seu pai.”.

*Um menino que se autodeclava negro, mas tinha mãe branca, por uma questão familiar e do pai não ter participado de sua educação, era encorajado pela mãe a não se considerar negro.

*Uma menina que se autodeclarava amarela, tinha uma irmã gêmea na mesma escola que se autodeclarava negra, e ela disse que se considerava amarela por ter sido criada com a avó que era japonesa.

Ouvindo tantas histórias, percebo que se DECLARAR negro no BRASIL, é uma questão de CORAGEM e parte de um processo de construção identitária bastante complexo.

Postura Urbana – A falta de um referencial, faz com que tudo gire em torno dos BRANCOS, na MODA e PUBLICIDADE, áreas em que trabalho, mesmo com a Revista RAÇA atuando já há 20 anos, percebo o quanto o negro quase não existe, como você enxerga isso?

Paola Prandini – A cultura fundamentalista européia tem sua parcela de culpa nisso, o espaço é fechado para os negros e todos se esquecem que, independentemente de sua etnia, de sua cor de pele, todas as descendências são africanas, a África é o berço do mundo. Existe uma agência de Modelos que vem fazendo a diferença no mercado, a HDA Models, claro é muito pouco, mas já é um começo, precisamos da aceitação da IMAGEM NEGRA, de momentos mais PROFUNDOS e menos CORTANTES.

Postura Urbana – Me fale um pouco de como foi sua infância, sua adolescência, de como começou a perceber o povo negro.

Paola Prandini – Desde criança sempre tive amigos negros e como meus pais frequentavam um terreiro de candomblé, sempre estive envolvida com pessoas negras, por muito tempo frequentei o terreiro, hoje não mais, mas trago comigo toda a base das religiões afro que me deram “discernimento”, para perceber o NEGRO enquanto ser humano. Também por ter vivido na periferia, morei, ao longo de quase toda a vida, no bairro do Jardim Brasil (zona Norte de SP), sempre tive contato com a realidade de um bairro pobre e majoritariamente negro, e isso me despertou cedo para me tornar ativista na causa pelos desfavorecidos, sempre fui comunicativa, participava de grêmio escolar, não à toa escolhi ser jornalista.

Me casei com um negro, meu marido não tem a pele escura, mas se autodeclara negro, é interessante o fato de que, pelo fato de ter a cabeça raspada, muitas vezes, não o consideram negro, mesmo tendo a barba crespa, mas barba não serve como referência, rsrsrs, “barba é vista como estilo”.

Postura Urbana – Falando nisso, como é trabalhar com o marido? Sei que ele é seu parceiro.

Paola Prandini – Sim, o Diego é fotógrafo e está comigo nas decisões da Afroeducação, é meu parceiro mesmo, mas isso se dá porque antes de trabalharmos juntos, nós vemos o mundo com o mesmo olhar, claro, muitas vezes há divergências, mas diante do mesmo objetivo de vida, superamos as dificuldades.

Postura Urbana – E quanto a Afroeducação, como vocês desenvolvem projetos e analisam parcerias?

Paola Prandini – Nossas bases de trabalho são sempre a partir do movimento negro, e de propostas educativas, temos parceria com:

* Espaço Itaú de Cinema

* CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades )

* Viração – Ong de Educomunicação

* Faculdade Anhembi Morumbi

* Núcleo de Comunicação e Educação da USP

Em 5 anos de atividades tivemos poucos parceiros financiadores, nossa entidade ainda não é financeiramente sustentável, e não temos uma sede física, mas estamos trabalhando para isso e, inclusive, para conquistar mais parcerias.

Postura Urbana – Vamos de Ping Pong agora,

a) Complete a Frase o Brasil é…

b) Música

c) Ser Humano, é ser Branco, Negro, Amarelo, Vermelho, como você vê essa questão?

d) Comida

e) Bebida

f) Um Lugar

g) E parafraseando nossa colega Marília Gabriela, Paola Prandini por Paola Prandini

Paola Prandini – Ok

a) O Brasil é RACISTA

b) Pode ser Estratégia Pedagógica

c) Precisamos Valorizar as diferenças para termos IGUALDADE

d) Pizza, (risos) adoro pizza.

e) Suco Natural

f) O lugar que estou no momento, pode ser minha casa, um passeio, uma viagem.

g) Uma pessoa que busca se aperfeiçoar para tornar o mundo melhor não só para ela, mas para todos.

 

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Paola, parabéns por seu trabalho, por seu engajamento em uma causa social tão nobre que é a questão do NEGRO, enquanto participante da sociedade, o Postura Urbana agradece a entrevista e te deseja muito Sucesso!!!

Imagens: Arquivo Pessoal

Por: JGA

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